Contos e lendas da Era Medieval

domingo, 31 de março de 2019

Os gigantes de Nideck

Ruínas do castelo de Nideck
Ruínas do castelo de Nideck
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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O castelo de Nideck, na Alsácia, está composto por 2 ruínas sobre um morro muito inclinado.

Esta singularidade do local e a vizinhança de uma grande cachoeira muito rumorosa tal vez tenha gerado uma lenda transmitida de pai a filho após inúmeras gerações.

Ela conta que há muitos séculos vivia no castelo de Nideck um casal de gigantes e sua “pequena” filha.

Ela ficava entediada nos imensos salões do castelo e, um dia, decidiu sair para conhecer as redondezas.

Ela vestiu de azul céu, arranjou seus cabelos para ficar bem bonita e partiu para descobrir o mundo de fora.

Com poucos passos, ela atravessou os morros e chegou até uma vasta planície que parecia deserta. Mas, lá embaixo, perto de seus pés, ela viu coisas que mexiam.

Pareciam minúsculas bonecas, entre as quais havia:

‒ uma boneca menino com bigode e um grande chapéu;

‒ uma boneca vaca que puxava uma charrete.

Maravilhada com essas bonecas que mexiam e faziam ruído, ela achou que:

‒ “Esses brinquedos devem ser muito entretidos nos dias de chuva quando fico dentro do castelo!”

Quando voltou ao castelo, seu pai estava sentado na mesa do grande salão. Ela disse:

‒ “Bom dia, meu pai”.

‒ “Bom dia, minha filha, você passou bem esta manhã?”

‒ “Ah, sim, pai! Eu fui passear.”

‒ “E o que é que você traz no seu lindo avental?”

‒ “São brinquedos que encontrei na planície”.

O pai, que era o rei desses territórios ficou surpreso que neles houvesse brinquedos para um gigante e que pudessem ser colhidos assim na planície.

Ele não tinha autorizado um jardim para filhos de gigante em seu território. Ele perguntou:

‒ “Você pode me mostrar essas maravilhas?”

‒ “Sim, pai. Você vai ver. Eles mexem, fazem ruído, como eles são bonitinhos!”

E ali o Rei compreendeu o engano de sua filha. Era preciso lhe explicar o erro e logo logo reparar a trapalhada.

‒ “Minha filha, essas coisas não são brinquedos, mas homens”...


‒ “Como é !!??”

‒ “Esses homens são os camponeses que cultivam nossas terras”.

‒ “Cultivam ?”

‒ “Tudo que nós comemos é produzido por esses camponeses”.

‒ “Haaa, agora eu entendo...”

‒ “Você tem que levá-los logo aos campos com muito carinho, se não nós não teremos mais nada para comer em poucos dias”.

A moça compreendeu o erro e com todo amor cumpriu o que pai lhe indicou e mais nunca se verificou nenhuma desaparição na região.

Hoje, os gigantes não habitam mais as ruínas, mas a lenda ficou para provar o zelo com que eles protegiam os simples camponeses, o desvelo que eles manifestavam pelos menores e a gratidão desses pelos seus enormes senhores naquele longínquo passado.




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domingo, 24 de março de 2019

Como São Luís, rei de França, em pessoa, com o hábito de peregrino, foi a Perusa visitar o santo Frei Egídio

São Luís IX, rei da França
Luis Dufaur
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Indo São Luís, rei de França, em peregrinação visitar os santuários pelo mundo, e ouvindo a fama grandíssima da santidade de Frei Egídio, o qual fora dos primeiros companheiros de São Francisco, pôs no coração e determinou por tudo visitá-lo pessoalmente.

Pela qual coisa veio a Perusa, onde habitava então o dito Frei Egídio.

E chegando à porta do convento dos frades, como um pobre peregrino desconhecido com poucos companheiros, chamou com grande insistência por Frei Egídio, nada dizendo ao porteiro sobre quem fosse aquele que o chamava.

Foi, pois, o porteiro a Frei Egídio e disse-lhe que à porta havia um peregrino que o procurava: e por Deus lhe foi revelado em espírito que aquele era o rei de França.

Pelo que subitamente ele com grande fervor sai da cela e corre à porta e sem mais pergunta, ou sem que jamais tivessem estado juntos, com grandíssima devoção ajoelhando-se abraçaram-se e beijaram-se com tanta familiaridade como se há longo tempo tivessem tido grande amizade.

São Luís IX indo para a Cruzada
No entanto, nenhum falava com o outro, mas estavam assim abraçados em silêncio com aqueles sinais de amor caritativo.

E ficando como ficaram por grande espaço de tempo por esta forma, sem dizer palavra, partiram-se um do outro; e São Luís continuou sua viagem e Frei Egídio voltou à sua cela.

Partindo o rei, um frade perguntou a algum dos seus companheiros quem era aquele que se tinha abraçado tanto com Frei Egídio; e ele respondeu que era Luís, rei de França, o qual tinha vindo para ver Frei Egídio.

O que dizendo este frade aos outros irmãos, houveram eles grande melancolia porque Frei Egídio não lhe tinha dito palavra; e lamentando-se lhe disseram:

“Ó Frei Egídio, por que foste tão vilão; que a um tão grande rei, o qual veio de França para ver-te e para ouvir alguma boa palavra, não disseste nada?”

São Luis dando jantar para os pobres
Respondeu Frei Egídio:

“Caríssimos irmãos, não vos maravilheis por isto; porque nem ele a mim nem eu a ele podia dirigir palavra, pois logo que nos abraçamos a luz da divina sapiência revelou e manifestou a mim o coração dele e a ele o meu.

“E assim por operação divina olhando nos corações, o que eu queria dizer-lhe e ele a mim muito melhor ficamos conhecendo, do que se o tivéssemos falado com a boca, e com maior consolação, e se nos quiséssemos explicar com a voz o que sentíamos no coração, pelo defeito da língua, a qual não pode claramente exprimir os mistérios secretos de Deus, ternos- ia sido antes desconsolo do que consolação.

“E portanto tende como certo que de mim se partiu o rei admiravelmente consolado".

Em louvor de Cristo. Amém.


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domingo, 17 de março de 2019

O anel do rei Santo Eduardo


Luis Dufaur
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Certo dia, o rei Santo Eduardo já velho assistia à cerimônia de consagração de uma igreja construída em honra de São João Evangelista.

Nessa hora, um homem muito pobre aproximou-se dele e mendigou-lhe uma esmola “pelo amor de São João”.

O grande monarca passou a mão na bolsa, mas não encontrou nem prata nem ouro.

Santo Eduardo, então, mandou vir seu tesoureiro, mas não foi localizado no meio da multidão. E o pobre seguia implorando esmola.

Santo Eduardo sentia-se muito mal à vontade. Nesse momento lembrou que trazia um anel grande e muito precioso.

 Então, ele o tirou do dedo, e pelo amor de São João o deu ao miserável, que lhe agradeceu gentilmente e desapareceu.

Eis o que aconteceu com o anel.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

A dama branca do castelo de Puivert


Luis Dufaur
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Por causa da beleza, real ou imaginária, de uma mulher às vezes os homens cometem os erros mais incríveis, como sugere uma antiga lenda da região de Aude, na França.

Pelo fim do século XIII, uma linda princesa aragonesa foi convidada por Jean de Bruyères, senhor de Puivert para ficar em seu magnífico castelo.

Ela adorava as colinas da paisagem e, sobretudo, meditar olhando para o lago, sentada numa rocha em forma de cadeira esculpida como por arte de magia.

Mas, uma noite de tempestades fez desbordarem os rios e a cheia do lago cobriu a cadeira.

O senhor Jean, muito gentilmente se aproximou e disse à bela:

‒ “Mas, ... mas ... eu vejo muito triste minha senhora.”

domingo, 11 de novembro de 2018

Como São Francisco miraculosamente curou o leproso de alma e corpo; e o que a alma lhe disse subindo ao céu

São Francisco, Giovanni da Milano
(ativo entre 1346 e 1369)
Luis Dufaur
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O verdadeiro discípulo de Cristo, meu senhor São Francisco, vivendo nesta miserável vida, com todo seu esforço se empenhava em seguir a Cristo perfeito mestre.

De onde advinha frequentes vezes, por divina inspiração, que, de quem ele sarava o corpo, Deus na mesma hora lhe sarava a alma, tal como se lê de Cristo.

Pelo que servia não só voluntariamente os leprosos, mas havia também ordenado que os frades de sua Ordem, andando ou parando pelo mundo, servissem aos leprosos pelo amor de Cristo, o qual quis por nós ser considerado leproso.

Adveio em um lugar próximo ao em que morava São Francisco, servirem os frades em um hospital a leprosos e enfermos, no qual havia um leproso tão impaciente e insuportável e arrogante que cada um acreditava certamente, e assim o era, estar possuído do demônio.

Porque aviltava com palavras e pancadas tão cruelmente a quem o servisse, e, o que era pior, com ultrajes blasfemava contra Cristo bendito e sua Santíssima Mãe, a Virgem Maria, que por nenhum preço se encontrava quem o pudesse ou quisesse servir.

E ainda que os frades procurassem suportar pacientemente as injúrias e vilanias para aumentar o mérito da paciência, no entanto não podiam em sua consciência sofrer as contra Cristo e sua mãe, resolvendo por isso abandonar o dito leproso.

Mas não o quiseram fazer sem falar antes, conforme a Regra, com São Francisco, o qual vivia então em um convento próximo dali.

domingo, 28 de outubro de 2018

Cantiga de Santa Maria 113: “Pela razão hei de obedecer”

Luis Dufaur
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Esta história é a da grande pedra que caiu do morro sobre a igreja de Montserrat, e que desceu diretamente para arrebentar a igreja toda e o mosteiro.

Eu acho muito razoável que as pedras obedeçam à Mãe do Rei porque, quando Ele morreu por nós as pedras se racharam.

Este é um grande milagre que eu ouvi contar.

Que em Monserrat fez a Virgem, e ainda hoje se vê bem ali, com uma pedra que mexia e que chegou a cair.

E caiu de tal jeito que, se Deus a deixasse prosseguir, poderia destruir toda a igreja.

Mas, Deus não quis sofrer isto para defender a igreja de sua Mãe gloriosa, a Rainha espiritual.

Por isso desviou a pedra de tal maneira que não pudesse fazer mal e a fez descer tão devagar que depois não pôde mais girar.

Mas, os monges, que nessa hora cantavam a missa da Mãe de Deus, quando ouviram o grande ruído, disseram:

“Senhor, somos vossos, e não nos deixeis perecer nem morrer de mala morte”.

Dizendo isto, saíram da igreja e viram o rochedo ali onde tinha caído, porque Deus o tinha desviado e começaram a abençoar a Deus e à Virgem e seu poder.

domingo, 14 de outubro de 2018

O caos dos rochedos do « Pas de Soucy »

“Vou ganhar essa!”, fanfarronava grosso o Maligno
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Nas gargantas do rio Tarn, uma acumulação imensa de rochedos parece querer barrar a passagem do rio.

Esta curiosa formação geológica tal vez esteja na origem da lenda do “Soussich do Tarn”, ou do “Caos do Pas de Souci”.

Após sua miraculosa cura na fonte de Burle, a princesa Santa Enimia projetou construir no local uma casa de oração para freiras.

Hélas! Como acontece com freqüência, Belzebu ouviu falar do projeto, e entrou no mais profundo desacordo.

Para pior, o diabo via que o prédio começava a subir.

Então, aproveitou a noite para destruí-lo com um só sopro.

domingo, 30 de setembro de 2018

A serpente de ouro


Luis Dufaur
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Ao ir um homem rico à cidade, perdeu o que levava consigo: um saco repleto, com mil talentos, sobre os quais havia uma serpente de ouro com olhos de ametista.

Um pobre que passava pela mesma estrada achou o saco e o entregou à esposa, contando-lhe como o achara. Ouvida a história, a mulher disse:

— Guardemos o que Deus nos deu.

No dia seguinte, um arauto percorreu a rua gritando:

— Quem encontrou o tesouro contido num saco, restitua-o, e não só estará livre de qualquer delito, mas terá ainda a recompensa de cem talentos.

Ouvindo o arauto, o homem que achara o tesouro disse à mulher:

— Restituamos o tesouro, e não só estaremos livres de qualquer pecado, mas ainda por cima teremos cem talentos.

— Se Deus quisesse que o dono ficasse com o tesouro, o dono não o teria perdido. Portanto, guardemos o que Deus nos deu — replicou a mulher.

O homem insistiu em que devia restituí-lo, enquanto sua mulher a isto se opunha de todos os modos. Ele, porém, quisesse ou não quisesse a mulher, fez a restituição e reclamou o que o arauto prometera.

Entretanto o ricaço, cheio de perversidade, disse-lhe:

— Fica sabendo que falta a outra serpente.

Assim falou, com o criminoso intuito de não dar ao pobre homem os talentos prometidos. Este, por sua vez, afirmou que não tinha encontrado nada mais.

Os homens daquela cidade, favoráveis ao rico e no desejo de desacreditar o pobre, cuja sorte lhes provocara inveja, levaram-no à justiça. O pobre homem continuou proclamando que nada mais tinha encontrado.

domingo, 2 de setembro de 2018

A freira que quis fugir do convento

Luis Dufaur
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Eis como Santa Maria dissuadiu uma freira de ir embora de seu mosteiro com um cavalheiro.

“De muitas maneiras Santa Maria nos afasta do mal, tão leal Ela é conosco.”

Sobre isto, eu vou vos contar um milagre, tal como eu sei, que fez Nossa Senhora a uma freira a quem Ela deu grande prova de amor.

Essa monja era muito bela e observava tudo o que está na Regra.

Tudo o que era de agrado de Santa Maria ela fazia sempre e pontualmente.

domingo, 19 de agosto de 2018

Como São Pedro e São Paulo apareceram a São Francisco e Frei Masseo que pediam a santa pobreza

São Francisco de Assis, Berto di Giovanni di Marco (1475-1529), Walters Art Museum.
São Francisco de Assis,
Berto di Giovanni di Marco (1475-1529), Walters Art Museum.
Luis Dufaur
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O maravilhoso servo e seguidor de Cristo, isto é, monsior São Francisco, para se conformar perfeitamente com Cristo em todas as coisas, o qual, segundo o que diz o Evangelho, mandou os discípulos dois a dois a todas aquelas cidades e regiões aonde devia ir.

Depois que, a exemplo de Cristo, reunira doze companheiros, os enviou pelo mundo a pregar dois a dois.

E, para lhes dar o exemplo de verdadeira obediência, começou ele primeiramente a ir a exemplo de Cristo, o qual começou primeiramente a fazer do que a ensinar.

Pelo que, tendo designado aos companheiros as outras partes do mundo, ele, tomando Frei Masseo por seu companheiro, seguiu para a província da França.

E chegando um dia, com muita fome, a uma cidade, andaram, segundo a Regra, mendigando pão pelo amor de Deus; e São Francisco foi por uma parte e Frei Masseo por outra.

Mas, por ser São Francisco um homem muito desprezível e pequeno de corpo e por isso reputado um vil pobrezinho por quem não o conhecia, só recolheu algumas côdeas e pedacinhos de pão seco.

domingo, 5 de agosto de 2018

O jogral no inferno


Luis Dufaur
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Em Sens, na França, havia um jogral incapaz de fazer mal a uma criança, mas que levava a vida mais desordenada que se possa imaginar.

Passava as horas e os dias na taberna, nas praças ou em lugares piores.

Ganhava algum dinheiro cantando e tocando seu instrumento, mas logo corria à procura de quem estivesse disposto a jogar, e perdia até a camisa do corpo.

Quando não tinha dinheiro, empenhava até sua viola para obtê-lo, e esse também se evaporava, porque de fato a sorte nunca o ajudava.

Por isso sempre vestia roupas maltrapilhas, andava descalço e sem dinheiro. Mas estava sempre contente, sorria sempre e cantava sem cessar.

Só pedia a Deus que convertesse todos os dias da semana em Domingo.

Acabou morrendo. Um diabo novinho, que ainda não fizera sua estreia no serviço de levar almas para seu patrão, e que durante o mês anterior percorrera vilas e campo à procura de oportunidade para cumprir suas incumbências, coincidiu de passar por ali no momento em que o jogral expirava, e se apoderou da sua alma. Colocou-a nos ombros e se mandou para o inferno.

Chegou na hora da chamada. Lúcifer estava no seu trono.

À medida que chegavam, os demônios depositavam aos pés do patrão a caça que haviam conseguido durante o dia. Um trazia um ladrão, outro trazia um guerreiro morto em combate, outros traziam bispos, monges, camponeses, burgueses, etc.

domingo, 22 de julho de 2018

A fonte milagrosa de Santa Enimia

Luis Dufaur
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No atual departamento de Lozère, ao longo do rio Tarn, encontra-se a vila medieval de Santa Enimia encravada nas rochas. Seu nome está associado com uma princesa que não poderia deixar este lugar.

O seu estranho nome está ligado a uma legenda.

O fato aconteceu há muito tempo, por volta do ano de 615. Enimia foi uma princesa Merovíngia, irmã do rei Dagoberto.

Ela tinha uma beleza inigualável e atraia muitos pretendentes. Mas Enimia preferia se dedicar a Deus.

Infelizmente, como muitas vezes acontece, seu pai, o rei Clotário II decidiu em sentido contrário. Ele mandou-a chamar na sala e disse:

‒ “Filha, eu tenho observado que Você recusa todos os candidatos!”

‒ “Mas, pai, eu .......”

‒ “Deixe-me falar!”, disse o rei retorcendo seu belo bigode.

‒ “Sim, meu pai", respondeu a nossa Enimia olhando para baixo.

‒ “Desse jeito não haverá herdeiro para o reino!"

‒ “Mas, pai, eu ...”

‒ “Simplesmente, eu decido que você fique noiva de um dos meus barões. Assim seja!”

Apesar das lágrimas e dos repetidos pedidos para seu amado pai, ela não obteve a anulação da decisão real.

domingo, 8 de julho de 2018

Como os corvos enganaram as corujas

Patronio: "com certeza esse homem veio para vos enganar".
Patronio: "com certeza esse homem veio para vos enganar".
Luis Dufaur
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O Conde Lucanor falando com Patronio, seu fiel conselheiro, disse:

– Patronio, estou em luta contra um inimigo muito poderoso. Ele tinha em sua casa um parente criado junto com ele e a quem ele tinha favorecido muitas vezes.

Mas, por causa de uma disputa entre eles, meu inimigo causou graves danos e desonrou seu parente ao qual devia muitas coisas.

O parente, pensando em aquelas ofensas e procurando forma de se vingar, quer se aliar comigo.

Acredito que vai ser um homem muito útil, porque poderia me aconselhar o melhor modo de fazer dano a meu inimigo, sendo que o conhece muito bem.

Pela grande confiança que vós mereceis e pelo vosso bom senso, vos rogo que me aconselheis sobre o modo de resolver esta questão.

– Senhor Conde Lucanor – disse Patronio – o primeiro que vos devo dizer é que com certeza esse homem veio para vos enganar.

E para que saibas como tentará consegui-lo, gostaria que soubesses o que aconteceu entre os corvos e as corujas.

O conde quis saber do que tinha acontecido naquele caso.

– Senhor Conde Lucanor – começou Patronio – os corvos e as corujas estavam em guerra entre si e os corvos levavam a pior parte porque as corujas só voam pela noite e no dia ficam escondidas em locais muito ocultos.

domingo, 24 de junho de 2018

São Domingos no enterro do comerciante


Luis Dufaur
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Certa feita, o Conde Lucanor estava falando de seus assuntos com Patronio seu sapiente conselheiro, e disse:


– Patronio, alguns me aconselham reunir a maior quantidade possível de dinheiro. E dizem que o que mais convém, mais do que tudo.

Rogo-vos vossa opinião sobre esse assunto.

– Senhor conde – respondeu Patronio – é necessário os grandes senhores terem dinheiro em muitas ocasiões. Sobre tudo para nunca deixardes de cumprir vossos deveres por carência de pecúnia.

Mas não por isso podeis pensar só em reunir dinheiro esquecendo todas as obrigações que tendes com vossos vassalos. E as obrigações próprias de vosso estado e dignidade.

Porque se agísseis de outro modo vos poderia acontecer o mesmo que ao lombardo que morava em Bolonha.

O conde não conhecia a história e lhe perguntou sobre o acontecido.

– Senhor conde – contou Patronio – havia na cidade de Bolonha um homem nascido na Lombardia acumulador de grandes riquezas sem olhar de onde provinha. E só procurava acrescentá-las dia após dia.

Até que o lombardo adoeceu muito gravemente. Um de seus amigos, vendo-o tão perto da morte, lhe pediu que se confessasse com São Domingos, que na ocasião estava em Bolonha.

domingo, 10 de junho de 2018

O anjo e o cálice do ermitão

O anjo e o cálice do ermitão
Luis Dufaur
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Enquanto um peregrino perfazia sua longa romaria aconteceu de se aproximar um homem jovem, pobremente vestido, que lhe pediu licença para prosseguir na sua companhia.

No transcurso da viagem o peregrino ficou admirado vendo seu novo companheiro se afastar dos locais onde costumeiramente a juventude procura prazeres, como bailes e cabarés.

Em revanche, quando o novel viajante descobria um cadáver abandonado na floresta, se dava todos os cuidados para enterrá-lo.

Certa feita, no fim da jornada, foram surpresos pela noite precisamente numa floresta. Só conseguiram perceber uma pequena ermida.

Nela imploraram a hospitalidade de um santo homem que lhes ofereceu seu pão e seu leito.

Na manhã do dia seguinte, após apresentarem seus agradecimentos e se terem despedido, os caminhantes retomaram a estrada.

Mas, eis que o peregrino percebeu na sacola do jovem um belo cálice dourado que o ermitão usou para dizer a Missa.

– Como é possível que tu tenhas ousado roubar um homem que se mostrou tão bom conosco?, reprochou-o.

O jovem respondeu: