Antonio Lassance

01 agosto 2018

A nova idade das trevas


A desigualdade extrema criou uma aristocracia encastelada e armada, que vive de forma cada vez menos produtiva e mais fisiológica. O capital tem se tornado, cada vez mais, "capital fisiológico".

Imersa em uma ilha de sonhos, essa elite vive um conto de fadas rotineiramente assombrado pelas monstruosidades de um mundo de pobreza e degradação humana e ambiental. 



Matthew Stewart  fala como o apartheid que se tornou a marca de vários países lança a expectativa de um futuro sombrio sobre todos nós.

O vídeo mostra a importância de se desconcentrar a riqueza, desarmar as pessoas e garantir igualdade de condições para que ninguém, rico ou pobre,  seja movido pelo desespero.


"Ao contrário do mito popular, a mobilidade econômica na terra das oportunidades não é alta e está declinando."


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Como uma nova forma de segregação aristocrática está envenenando a sociedade

MATTHEW STEWART, Escritor e filósofo:
Os Estados Unidos estão seguindo um caminho.
É um caminho de estratificação de classes, crescente desigualdade.

E as conseqüências disso são mais potencialmente prejudiciais do que eu acho que a maioria das pessoas aprecia.

PAUL SOLMAN:
Em uma provocativa matéria de capa da revista "Atlantic", "O nascimento de uma nova aristocracia", o autor e filósofo Matthew Stewart argumenta que a crescente divisão de classes é desestabilizadora para a nossa sociedade.

MATEUS STEWART:
Então, acontece que a concentração de riqueza nos Estados Unidos realmente incide sobre os primeiros 0,1%, e não nos primeiros 1%.
Mas isso não significa que todos abaixo deles tenham perdido dinheiro.

Na verdade, apenas os 90% inferiores perderam.

Então há esse grupo no meio, os 9,9%, que conseguiu manter seu padrão.

Eles desempenham um papel muito importante, por um lado, na direção da economia,

Por outro lado, basicamente, na criação de barreiras que impedem as pessoas de baixo de viver o sonho americano.

PAUL SOLMAN: Então, quanto de riqueza as pessoas dos 9,9% têm?

MATTHEW STEWART: Agora, você precisa de no mínimo uns US$ 1,2 milhão para chegar aos 9,9%.

E a mediana está em torno de US$ 2,4 milhões.

PAUL SOLMAN: Valor líquido, isso?

MATTHEW STEWART: Sim, melhor dizendo.

Isso tudo é patrimônio líquido.

E inclui todas as formas de ativos.

Então isso incluiria casas.

Nos números que vi, também inclui coisas como carros.

É muito importante entender que nossa riqueza não é apenas financeira.

Nós, os 9,9%, todos desfrutamos de uma saúde melhor.

Nós tendemos a viver em melhores bairros, o que significa que temos menos crimes para lidar.

Nós temos uma educação melhor.

Então, todas essas formas não financeiras de riqueza acabam se tornando cruciais.

Elas não apenas nos tornam capazes de gerar mais riqueza econômica, mas também de consolidar nossa posição.
Podemos então transferir isso para nossos filhos.

PAUL SOLMAN: Obviamente não é bom para as pessoas que estão presas embaixo, mas seu argumento é: também não é bom para pessoas que têm a sorte de estar acima.

MATTHEW STEWART: Sim, isso mesmo, porque, quando as classes se separam muito, as pessoas dos estratos superiores precisam trabalhar sempre mais para manter sua posição.

E eles têm mais chance de cair se cometerem um erro.

Então eles investem mais em preservar sua posição.

E eu não acho que tenhamos notado como isso se ramifica em toda a sociedade

Isso nos encaixa em um lugar, desenha linhas de batalha, cria desconfiança.

PAUL SOLMAN: E o que está levando a isso?

MATTHEW STEWART: A causa fundamental é algo que todos nós conhecemos.

Todos nós conhecemos a história da crescente desigualdade.

Isso cria um tipo de rigidez, uma instabilidade.

Também obscurece nossa visão, tira nossa razão,  ficamos sem uma base comum para nossas discussões
A desigualdade se retroalimenta em algum grau.
Então, quanto maior a concentração de riqueza, mais as pessoas com essa riqueza podem usá-la para consolidar sua posição, investindo em formas não financeiras de riqueza.
PAUL SOLMAN: Eu ouvi isso aqui como "capital transacional".

MATEUS STEWART: Também pode ser apenas "capital fisiológico" em certo sentido.

Então, verifica-se que não só os mais ricos estão ficando mais saudáveis, mas as pessoas na parte inferior os últimos decís estão realmente ficando menos saudáveis ​​em muitos aspectos.

Assim, por exemplo, brancos de meia-idade com até o ensino médio tiveram sua expectativa de vida diminuída.

PAUL SOLMAN: Parte do que está conduzindo a isso é algo que você e outros chamam de acasalamento seletivo.
MATTHEW STEWART: Então, o acasalamento seletivo é justamente quando se casa com alguém assemelhado.
Nos últimos 50 anos, temos visto um aumento significativo nesse tipo de padrão de casamento.

Existem alguns estudos que sugerem que cerca de um terço do crescimento da concentração de riqueza é devido a decisões relacionadas com casamentos seletivos, essencialmente.
PAUL SOLMAN: Assim como nos velhos tempos, famílias nobres, reis, rainhas  eles se casavam entre si para consolidar seu poder e sua riqueza.

MATEUS STEWART: Bem, isso me lembra Jane Austen, para ser honesta, porque estamos voltando para um mundo em que os indivíduos procuram parceiros de forma obsessiva. 

Eles não conseguem encontrar o amor verdadeiro em alguém que tenha o status social adequado.

O benefício que você obtém do status social correspondente é tremendo, e o preço que você paga por não conseguir fazer isso, por não conseguir encontrar um companheiro de alto status subiu.
Subiu drasticamente.

Se você é de baixo status e se casa com um parceiro de baixo status, o casamento é realmente mais difícil.

É mais difícil porque você está trabalhando mais, provavelmente, ou você tem riscos maiores, maior estresse.

Você tem pior saúde.

E, consequentemente, você, estatisticamente, tem muito menos probabilidade de ter um lar estável.

PAUL SOLMAN: Então, o que você quer que os 9,9% façam?

MATTHEW STEWART: Temos que começar a pensar em como podemos viver em comunidades integradas que estão abertas a todos, onde a geografia não é uma barreira econômica e de classe.

Nossa geografia está nos matando.

Estamos montando um sistema onde concentramos recursos educacionais, as escolas em um particular área.

Nós concentramos poder econômico.

PAUL SOLMAN: É por isso que as pessoas se mudam para áreas como o local onde você mora, Brookline, Massachusetts, que tem esse ótimo sistema educacional, certo?

MATTHEW STEWART: Sim.

É ótimo.

Temos um sistema quase privado de educação que chamamos público.

Certo?

Eu me mudo para Brookline, mando meus filhos para escolas públicas, são ótimas escolas.

É por isso que você se muda para lá.

E você também pode.

Você apenas tem que comprar uma casa que vale US $ 2 milhões.

Agora, isso é um erro colossal, colossal.

Na história dos Estados Unidos, a educação pública era absolutamente essencial na construção da classe média.

Foi assim que conseguimos a economia produtiva em que todos participam e tivemos um grau razoável de estabilidade.

Estamos agora montando um sistema onde nós recebemos a educação pela qual você paga.

E isso significa que você recebe um monte de cidadãos sem instrução.

E isso é uma receita para o desastre.

PAUL SOLMAN: Eu acho que é o mais difícil para alguém como eu ou pessoas que nos assistem.

O que estamos fazendo é o que é absolutamente natural para nós, isto é, investir em nossas crianças, mudando-se para um bairro com uma boa escola para nossos filhos ou netos.

Você não quer que eu pare de fazer isso, certo?

MATEUS STEWART: Só porque nossas ações individuais são inocentes quando olhamos para elas muito estreitamente, isso não significa que tudo vai dar certo para o melhor.

Eu morava no México, morei no Reino Unido por vários anos.

Eu vi versões deste processo acontecendo.

Todo mundo envolvido é legal.

Mas, no final do dia, eles participam dessa coisa que leva você a um ponto onde você tem uma classe distinta de pessoas maravilhosas rodeadas por muitas outras pessoas  muito infelizes com isso.

Paul Solman: E as pessoas nessa classe distinta, pelo menos em lugares como o México, eles têm pistoleiros reais em suas casas grandes e extravagantes.

Certo?

MATEUS STEWART: Certo.

E há uma progressão natural de comunidades fechadas para comunidades armadas e fechadas.

E estamos meio que entrando nisso agora.

E se continuarmos seguindo esse caminho, sim, teremos as comunidades armadas e fechadas.

E nenhum de nós terá feito nada de errado.

Mas é onde nós estaremos.


O artigo completo de Stewart está publicado na revista Atlantic.







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25 julho 2018

O candidato do PT chama-se Luiz Inácio Lula da Silva



Parece que muita gente não entendeu ou não prestou atenção. 
Pior, está caindo em uma armadilha. 
Por isso, é preciso lembrar o óbvio ululante.


Antonio Lassance, cientista político.

O candidato do PT chama-se Luiz Inácio Lula da Silva. Ponto. Seu vice, até o momento do registro oficial da candidatura e até que se consiga garantir a participação plena de Lula na campanha - nos debates, comícios, reuniões de coordenação e gravando mensagens - é Fernando Haddad.

Assim que Lula puder participar da campanha, Manuela D'Ávila, do PCdoB, assume a condição de vice, no lugar de Haddad.

Se Lula será impugnado ou não; se, sendo impugnado, será substituído por outro candidato ou não - isso são outros quinhentos.

Lula tem dois vices não é porque o PT tenha plano A e plano B, e sim porque existem dois momentos distintos na campanha, um T1 e um T2.

O T1 é o período que vai do registro da candidatura Lula-Haddad (15 de agosto) até o momento em que seja garantida a participação do presidente Lula na campanha.

Enquanto a justiça eleitoral não for provocada a se manifestar sobre a candidatura Lula e enquanto não houver decisão que a impugne, a candidatura é válida e Lula tem direito a fazer campanha. Isso é o que o PT quer e é o que a lei garante.

Embora a imprensa desde algum tempo já
trate Haddad como plano B do PT, já há quem no próprio PT e no PCdoB considere a candidatura Haddad à presidência como favas contadas.

A própria Manuela D'Ávila chegou a dizer, de forma dúbia, mas dando margem a essa interpretação, que:

"O nosso acordo político... é um acordo em que nós do PCdoB ocuparemos a vaga de vice em qualquer um dos cenários... mas eu e o Haddad estamos prontos para vencer as eleições em qualquer cenário",
disse a candidata em coletiva de imprensa.

O jornalista e analista Breno Altman, em uma entrevista (transmitida ao vivo pelo Youtube em 6 de ago de 2018, neste link), cometeu o deslize de dizer diz que, caso a candidatura Lula seja indeferida, o ex-prefeito de São Paulo 


"se transforma automaticamente no candidato do PT e a Manuela D'Ávila é sua vice. Essa é a fórmula, o acordo estabelecido entre o PT e o PCdoB".

Para Altman, isso refletiria uma "mudança de tática". Errado. O que ocorreu, e ocorreu para evitar desavenças de interpretação por alguns ministros do TSE e riscos ao registro da candidatura, foi apenas a operacionalização da tática para que a inscrição da chapa atendesse a essa situação excepcional em que se encontra o presidente Lula.

De todo modo, os dirigentes do PT e os
apoiadores da candidatura Lula precisam URGENTEMENTE explicar isso de forma clara a quem já se apressou a fazer um anúncio de plano B, o que não está dado. 

O candidato do PT é e seguirá sendo Lula, até que haja - o que ainda não há - impedimento em contrário. O cerne da tática do PT neste momento é centrar o foco no registro da candidatura Lula e na defesa do  direito de Lula fazer sua própria campanha, com plena liberdade. Enquanto não houver decisão da justiça eleitoral em contrário, é disso que se trata.

Coincidentemente, no dia 7 de agosto, o deputado e advogado Wadih Damous (PT-RJ) disse em seu perfil em uma rede social:

"Acabo de visitar o Presidente Lula. Ele é candidato à Presidência. Haddad foi escolhido vice. Lula só não será candidato se a justiça rasgar a Constituição. Ele não troca a sua dignidade pela sua liberdade com a qual não fará comércio. O seu compromisso é com o povo brasileiro."

Para bom entendedor, o recado está dado. O resto é casca de banana.








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A estratégia "Marta Suplicy" dos escudeiros de Haddad  

Antonio Lassance, cientista político.
Artigo publicado na Carta Maior e
Logo abaixo do artigo estão a réplica de Haddad e
minha tréplica.


O ato falho
 
Nabil Bonduki, o arquiteto, urbanista, ex-secretário municipal de Cultura, ex-vereador do PT e fiel escudeiro do ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, bradou que o PT "precisa definir quem substituirá Lula no caso do seu provável impedimento" (Folha de S. Paulo, 24 de julho). E precisa fazer isso rápido. De preferência, ontem.
Examinemos seu argumento principal:
   
"Se o PT acredita no que sua direção, seus militantes e seus simpatizantes dizem, o nome de Lula não estará nas urnas em 7 de outubro. Afinal, como dizem, não foi para isso que o golpe foi dado? Não é por isso que Lula está preso e condenado em segunda instância, com uma velocidade ímpar no Judiciário brasileiro?"

O primeiro detalhe que chama a atenção é um ato falho. A não ser que Bonduki tenha a mesma mania de Edson Arantes, que fala "no Pelé" em terceira pessoa, é preciso que ele nos informe porque excluiu a si próprio da lista de militantes e simpatizantes do PT. 

Faz tempo que o PT perdeu o prurido que tinha em separar discussões "externas" (pela imprensa) e "internas" (em plenárias, reuniões de diretórios, encontros, convenções, congressos), mas alguém fazer um debate partidário como se fosse observador distante, e não um integrante desse próprio partido, é algo digno de um "nunca antes na história desse partido".

O plano B, em resumo

Em seu artigo, Bonduki tenta convencer o PT de que, para o seu próprio bem, precisa se livrar logo da candidatura Lula e seguir adiante. O partido não pode se dar ao luxo de "perder tempo". 

Depois de começar com esse rompante, o artigo termina com o eufemismo de defender uma "cara nova para um projeto político que não se limita a uma personalidade". Nas entrelinhas, Bonduki usou o tucanês para se referir à pré-candidatura de Fernando Haddad à presidência.
 
O plano B defendido no artigo tem como sentido claro criticar e frustrar o ato que a Direção Nacional marcou para fazer o registro da candidatura Lula, no dia 15 de agosto. Segundo o colunista companheiro da Folha, é preciso atenção ao timing:
"Para além de Lula, seu [do PT] potencial é enorme. Mas não pode mais se ausentar do debate eleitoral."

Interessante que a reclamação da suposta "ausência do debate eleitoral" foi feita poucos dias depois de o PT ter lançado justamente as diretrizes do programa de governo, fato que deu grande evidência ao interlocutor incumbido dessa tarefa - justamente, Fernando Haddad. 

Engraçado como essa "ausência do PT no debate eleitoral" levou à terrível situação em que Lula pontua como líder em todas as pesquisas e o PT desponta como o partido de maior simpatia do eleitorado. O PT segue em posição de absoluta evidência, mesmo debaixo de um massacre midiático e do conluio da grande aliança da Casa Grande em torno da tese de que Lula não pode ser candidato.

O bom é começar por baixo

De acordo com essa estranha linha de raciocínio, o bacana seria colocar de pronto um candidato que aparecesse em terceiro, quarto ou quinto lugar, se acotovelando ali com Marina e Ciro, quem sabe, com Alckmin. 

A propósito, embora Alckmin se arraste em campo como aqueles jogadores sem gás, com cãibra logo ao início de uma prorrogação, o picolé de chuchu  é apresentado como "polo forte" dessa eleição; assim, digamos, como uma Alemanha em Copa do Mundo. 

Confesso que as análises sobre Alckmin feitas por FHC me parecem bem melhor informadas, mais interessantes e menos ufanistas sobre a candidatura do PSDB. Quem sabe, em uma próxima conversa de Haddad com o "príncipe dos sociólogos", pelo menos o prognóstico sobre as chances do tucano possa sofrer algum alinhamento.

PT sem Lula?

Indo direto ao ponto, é preciso responder às perguntas de Bonduki, até porque, talvez, sejam dúvidas, além de Bonduki, também de dirigentes, militantes e simpatizantes do PT. 

Antes de mais nada, é importante deixar claro que essa categoria de "simpatizantes do PT" é formada, em sua esmagadora maioria, por simpatizantes DO LULA e de sua experiência de governo. Em segundo lugar, até mesmo os antipetistas reconhecem que Lula e o PT são duas coisas indissociáveis. 

Deixemos de lado os arroubos de como seria esquisito falar do PT sem Lula, assim como na poesia de Cacá Moraes e Abdullah (musicada em “Fico assim sem você”), é esquisito falar de avião sem asa, fogueira sem brasa, amor sem beijinho, Buchecha sem Claudinho. 

Moderemos a dimensão épica consagrada pelo ex-ministro Celso Amorim, ao dizer que a candidatura Lula é o maior ato de desobediência civil contra o golpe. Deixemos pra lá também a caracterização precisa, feita pelo filósofo político Renato Lessa, de que a prisão de Lula foi um "impeachment preventivo". Elas são perfeitas para dizer o que acontece, mas não necessariamente para dizer o que fazer daí em diante.

Argumento bumerangue

O argumento central do artigo de Bonduki, na Folha, é contraproducente. Dizer que o PT deve desistir da candidatura Lula e jogar a toalha simplesmente porque o nocaute é líquido e certo pode até ser uma presunção, mas não é um argumento. Pior é que a presunção nocauteia a si própria. Afinal, se o golpe e a prisão de Lula foram feitos para tirar as chances de o PT chegar de novo à presidência, seguindo essa mesma lógica, de que adiantaria trocar o nome do candidato? Seria preciso o PT trocar também de rosto, de pele, de sangue. 
 
A presunção tem uma premissa equivocada: a de que todo mundo no PT sabe que a candidatura Lula será impugnada. Portanto, todo mundo do PT está fingindo e mentindo. Pelo menos, fingindo para os outros e mentindo a si próprio. Porém, a premissa da candidatura Lula não é essa, e sim a de que candidatura alguma pode ser impugnada, a não ser pela justiça eleitoral - em última instância, pelo Supremo.

Menos convincente ainda é o argumento de que:
"Não adianta os “conselheiros jurídicos” do PT mostrarem 145 exemplos de prefeitos que se elegeram sem ter o registro deferido e que, em 70% dos casos, acabaram revertendo a inelegibilidade e hoje governam suas cidades.
Alguém acredita que, na atual conjuntura, haja alguma equivalência entre Lula e um prefeito do interior?"

Se for assim, é bom perguntar desde quando Bonduki acredita que a "lawfare" desferida contra Lula irá poupar Haddad, Jacques Wagner ou quem quer que seja. Estaria Nabil Bonduki equiparando Haddad a um prefeito do interior?
 
Os argumentos contrários à candidatura Lula estão praticamente me convencendo de que a "cara nova para um projeto político que não se limita a uma personalidade" não seria uma opção minimamente válida, na eventualidade de Lula realmente precisar de um substituto, em alguma altura desse campeonato.

Se a cassação é inevitável, relaxa que temos Haddad

Por que chamo essa estratégia afobada e mal ajambrada de "estratégia Marta Suplicy"? Peço perdão tanto pela expressão quanto por ter que rememorar a triste figura que cunhou a frase de que, "se o estupro é inevitável"... o restante dispensa a transcrição.

Uma pergunta importante, justa, mas que não aparece de forma clara no artigo, é se, ao insistir em Lula, o PT não deixaria a campanha acéfala. Dúvida bastante razoável. Certamente, há várias formas de se deixar uma campanha acéfala. Uma delas é meter os pés pelas mãos. 

Todavia, como fazer se houver a ausência, justamente, do "cabeça de chapa"? Quem irá aos debates e comícios? Quem dará entrevista? Quem falará em nome da candidatura? Mais importante: quem irá pessoalmente às ruas pedir voto ao eleitor no lugar do candidato? Eleição, afinal, é isso. Se alguém é candidato, é preciso liberdade para fazer campanha. Quem diz isso? A lei.

Com Lula preso e candidato, ou os debates e entrevistas terão que motivar um habeas corpus em favor do ex-presidente, para que ele participe plenamente da campanha, ou os veículos terão que aceitar o nome que a chapa designar como representante para cumprir esse papel. Pode ser o candidato a vice, mas não necessariamente. 

O PT mesmo tem um precedente exemplar. Precedente é aquilo que antigamente se conhecia como "jurisprudência", seja lá o que isso hoje signifique. O fato é que, em 1989, o PT conseguiu um célebre direito de resposta no programa do falecido jornalista Ferreira Netto, da TV Record. Às vésperas daquela eleição, Ferreira Netto deu espaço ao adversário de Lula, Fernando Collor, sem conceder a mesma oportunidade a Lula. A justiça eleitoral o obrigou a receber um representante da campanha. 

Quem representou Lula no programa, falou da candidatura e confrontou Ferreira Netto - que claramente fazia campanha agressiva anti-Lula e pró-Collor - foi o saudoso Plínio de Arruda Sampaio, com olhos desprendendo chispas. Naquela situação, acho que nem Lula teria feito melhor. Ferreira Netto passou o programa todo quase que na condição de papel de parede.

O TSE aceitou essa situação em homenagem ao princípio de que as campanhas e seus candidatos devem ter direitos iguais. O recurso primordial, correto e necessário para garantir a presença da candidatura do PT nos debates é o habeas corpus em favor de Lula. 

Afinal, enquanto a justiça não cassar o direito de Lula ser candidato, o PT, os militantes, os simpatizantes e sobretudo aquilo que Bonduki se esqueceu de listar, o povo brasileiro (para incluir o simpatizante do Lula que não está lá dando muita bola pro PT), têm direito a ver, ler e ouvir Lula fazendo campanha. 
Enquanto Lula não tiver seus direitos políticos cassados, ele pode e deve ser o candidato do PT.

A César o que é de César

Na prática, Bonduki quer transferir a responsabilidade de cassação dos direitos políticos de Lula do TSE e do STF para o PT. Não faz o menor sentido. Repetindo o pressuposto: enquanto não houver decisão judicial contrária à candidatura de Lula, não é o PT quem deve dizer que não quer Lula, pois o PT quer. Lula é o sonho de consumo do PT.

Do contrário, seria mentir ao eleitorado dizer que o PT escolheu outro candidato. A situação correta e que deve ser honestamente exposta é: o PT foi OBRIGADO a apresentar outro candidato. 

Não faz sentido, nem para o PT, nem para o eleitorado, o PT dizer que mudou de ideia porque descobriu, hoje, que Lula está preso. 

Guardadas, obviamente, as devidas proporções, não cabe ao PT, nesse processo, assumir o papel do sumo sacerdote saduceu, Caifás, e deixar o STF na cômoda posição de Pôncio Pilatos, lavando as mãos. O jogo está sendo jogado. Precisa ficar claro quem é o juiz. Todos precisam ouvir seu apito. Todos precisam que isso seja exposto no painel do árbitro de vídeo e no placar do estádio. E todo mundo tem o direito inalienável de xingar o juiz. 

A partir do momento em que o PT fizer o registro da candidatura, respeitando o prazo limite, que é 15 de agosto, só então poderão chover os pedidos de impugnação. 

Depois disso, mesmo que seja impugnada, a candidatura pode e deve ser mantida com recursos a instâncias superiores. Veremos o festival de arbitrariedades e as novas peças do rosário de lambanças judiciais que serão perpetradas pelos Robespierres de toga. Certamente, eles continuam ávidos por fazer intervenções "iluministas" cirúrgicas capazes de provocar estragos que não ficam nada a dever às do famigerado Dr. Bumbum. Seja contra Lula, seja contra muitos outros candidatos que não sejam do seu agrado.

O calendário eleitoral faculta aos partidos até o dia 17 de setembro para, se quiserem, pedir a substituição de seus candidatos por outros nomes (Lei nº 9.504/1997, art. 13, §§ 1º e 3º). O PT pode requerer que os órgãos judiciais façam o julgamento respeitando esse prazo. Isso para evitar não apenas prejuízo à candidatura Lula, mas aos eleitores. Imagine a situação esdrúxula em que a Justiça não dê resposta final ao pedido e, depois, impeça que o PT substitua seu candidato em tempo hábil. Teríamos uma eleição com um candidato eleito sem o apoio de 80% do eleitorado, que teria votado nulo ou se abstido. Isso não anula a eleição, mas compromete decisivamente a legitimidade do eleito.

Talvez esse pedido de urgência nem seja necessário. No caso de Lula, a justiça tem sido feita, o tempo todo, a jato.

Um detalhe crucial

Mesmo que o candidato dos sonhos de alguns seja Haddad, Celso Amorim ou Jacques Wagner, parece que Bonduki não entendeu a importância pedagógica, primeiro, de que o ato de força que possa tirar a candidatura de Lula do páreo venha do Poder Judiciário. 

Segundo, mas não menos importante, o argumento manco de Bonduki também carece de uma avaliação mínima sobre outro elemento essencial. Se o PT tiver como "deadline" o 17 de setembro, é imprescindível que o próprio Lula tenha a oportunidade de expor essa situação ao eleitor. 

Lula precisa ter o livre direito de mostrar o que está acontecendo e de gravar uma imagem ao lado do candidato que o PT escolher para substituí-lo. Essa será não apenas uma peça fundamental à narrativa de campanha. Essa é a maneira de forçar que a verdade dos fatos se imponha, e não que seja escamoteada.
Enquanto isso, Haddad e seus escudeiros poderão dedicar um bom tempo pensando em como explicar que alguém que não conseguiu ser reeleito à prefeitura deva ser eleito presidente da República. 

Não é algo fácil de ser compreendido, a não ser pelos tais dirigentes, militantes e simpatizantes do PT aludidos por Bonduki. O problema é que, segundo nosso companheiro colunista, eles também parecem estar com muitos problemas de compreensão. Situação difícil essa.

Por enquanto, ir para a campanha com um discurso chinfrim de que o PT precisa de "cara nova para um projeto político que não se limita a uma personalidade" não diz nada e não convence ninguém. Nem na feira de Caruaru;  nem no Mercado Ver-o-Peso, de Belém; nem nas rodas de conversa do Amarelinho, no Rio; nem na rodoviária de qualquer capital; nem no Largo 13 de São Paulo. Talvez em Higienópolis, quem sabe?



A  imagem que ilustra esta postagem foi captada pelas lentes da câmera de Francisco Proner Ramos, fotógrafo de apenas 18 anos.  Visite a página do artista: https://www.franciscopronerramos.com/


A resposta de Haddad
O ex-prefeito Fernando Haddad entra em contato com o GGN para os seguintes esclarecimentos.

1. Surpreende a agressividade do articulista contra mim. Me lança acusações descabidas, me atribuindo as teses do artigo, pelo mero fato de Nabil Bonduki ter sido meu secretário. Bonduki nunca foi do meu círculo intimo e não o vejo há um ano e meio.

2. Sou advogado, procurador do Lula, coordenador do plano econômico do PT, me encontro com o Lula semanalmente, dei duas entrevistas amplas esta semana defendendo a candidatura Lula. O articulista ignora tudo isso e baseia suas acusações  graves ao mero fato de Bonduki, professor da USP, que pensa com sua própria cabeça, ter sido meu secretário.

3. Não há nenhuma lógica politica em abandonar uma estratégia até agora vitoriosa a 20 dias do registro.




Tréplica a Haddad

Antonio Lassance.

Ao contrário do que diz o ex-prefeito, não atribuo a ele as "teses do artigo" de seu ex-secretário de cultura, Nabil Bonduki. Atribuí e continuo atribuindo as mesmas ao próprio Nabil Bonduki, como fica claro ao longo de todo o artigo. O que relaciona Haddad é a dedução óbvia sobre o que Bonduki chama de a "cara nova para um projeto político que não se limita a uma personalidade".

Pode ser até mesmo que o próprio Nabil, a quem também não fiz qualquer ataque de cunho pessoal, e sim político, não tenha se apercebido da obviedade da frase para a qual, talvez, quisesse dar algum grau de dubiedade, sem que de fato conseguisse. Pode ser. Na melhor das hipóteses, para fazer um trocadilho, Nabil foi inábil.

Creio que a mesma indignação que Haddad e, possivelmente, ainda mais, o companheiro Nabil Bonduki sentiram é similar à que dirigentes, militantes e simpatizantes do PT sentiram ao ver a candidatura de Lula ser considerada "perder tempo" ou, pior, uma tentativa de enganar o país ou si próprios, apostando em uma candidatura que tem grande probabilidade de ser impugnada.

Atribuir aos petistas a responsabilidade de ceifar os direitos políticos do ex-presidente e privá-los de fazer campanha, enquanto for possível, por sua maior liderança, é algo que não merece silêncio. Para quem, como eu, fez todas as campanhas de Lula e fará tantas outras quantas forem necessárias, ao contrário, é motivo da mais genuína indignação.

É digna de aplauso a afirmação de Haddad de que "não há nenhuma lógica política em abandonar uma estratégia até agora vitoriosa a 20 dias do registro". Meu artigo expõe exatamente a mesma tese, do início ao fim.

De fato, não sei qual a relação de intimidade entre Bonduki e Haddad. Não é disso que trata o artigo. Historicamente, um escudeiro também não tinha parentesco, amizade ou mesmo a afeição do cavaleiro. O escudeiro era um aprendiz de cavaleiro, que tentava aprender com aquele até que adquirisse a mesma destreza. E carregava o escudo e a bandeira do cavaleiro. Ou seja, empunhava e defendia seu nome. É essa a analogia.

Na clássica história de Dom Quixote, é Sancho Pança, o escudeiro, quem dá conselhos de prudência e sensatez ao cavaleiro. Neste caso, a quixotada me parece ter partido do escudeiro, por razões óbvias de inabilidade política.

O fato é que, quando se escreve e se ensina sobre política, é preciso pelo menos ter aprendido dois célebres ditados:
De Tom Jobim, que "o Brasil não é para principiantes".
De Júlio César, que há certas coisas sobre as quais não deve pairar qualquer dúvida. Não basta ser, tem também que parecer. 
 





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24 julho 2018

Centenário de Antonio Candido

Antonio Candido de Mello e Souza (Rio de Janeiro, 24 de julho de 1918 – São Paulo, 12 de maio de 2017) foi o maior crítico literário brasileiro e um ativista político de esquerda durante toda a sua vida. 






 
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Principais obras de Antonio Candido:
  • Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, Livraria Martins Editora, 1959.
  • Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida, publicado pela editora José Olympio, em 1964. Foi também sua tese de doutoramento.
O reconhecimento à sua obra lhe rendeu o Prêmio Jabuti em 1965 e em 1993, o Prêmio Machado de Assis, também em 1993, o Prêmio Anísio Teixeira, em 1996, e o Prêmio Camões, em 1998.

Professor Antonio Candido
 
Principais títulos acadêmicos

    1944 – Livre-docente em Literatura Brasileira – FFCL-USP
    1954 – Doutor em Ciências Sociais – FFCL-USP
    1964-1966 – Professor-associado da Universidade de Paris
    1968 – Professor-visitante da Universidade de Yale
    1974 – Professor titular de Teoria Literária – FFLCH-USP
    1984 – Professor emérito da USP
    1987 – Professor honoris causa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
    1988 – Professor emérito da Faculdade de Ciências e Letras de Assis (Unesp)
    2005 – Doutor honoris causa da Universidade Estadual Paulista (Unesp)
    2006 – Professor honoris causa da Universidade da República do Uruguai

Principais prêmios

    1960 – Prêmio Jabuti - Categoria: História Literária - Livro: Formação da Literatura Brasileira
    1965 – Prêmio Jabuti - Categoria: Poesia - Livro: Os Parceiros do Rio Bonito
    1966 – Prêmios Jabuti - Categoria: Personalidade Literária do Ano/ Categoria: Estudos Literários (Ensaios) - Livro: Literatura e Sociedade
    1978 – Prêmio Jabuti - Categoria: Personalidade Literária do Ano
    1993 – Prêmio Jabuti - Categoria: Estudos Literários (Ensaios) - Livro: Brigada Ligeira e Outros Escritos
    1993 – Prêmio Machado de Assis - Academia Brasileira de Letras
    1994 – Prêmio Jabuti - Categoria: Estudos Literários (Ensaios) - Livro: O Discurso e a Cidade
    1996 – Prêmio Anísio Teixeira - Capes/ MEC
    1998 – Prêmio Camões de Literatura
    2000 – Prêmio Jabuti - Categoria: Amigo do Livro
    2005 – Prêmio Internacional Alfonso Reyes
    2007 – Prêmio Intelectual do Ano - Troféu Juca Pato - União Brasileira de Escritores

Principais obras publicadas (1ªs edições)

    Brigada Ligeira. Livraria Martins Editora, [1945].
    Introdução ao método crítico de Sílvio Romero. Revista dos Tribunais, 1945 [tese de livre-docência].
    Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. José Olympio, 1964 [tese de doutoramento].
    Ficção e confissão: estudo sobre a obra de Graciliano Ramos. José Olympio, 1956.
    Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Livraria Martins Editora, 1959 [dois volumes].
    O observador literário. Conselho Estadual de Cultura, 1959.
    Tese e antítese: ensaios. Companhia Editora Nacional, 1964.
    Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. Companhia Editora Nacional, 1965.
    Vários escritos. Duas Cidades, 1970.
    Teresina etc. Paz e Terra, 1980.
    Na sala de aula: caderno de análise literária. Ática, 1985.
    A educação pela noite e outros ensaios. Ática, 1987.
    O estudo analítico do poema. FFLCH-USP, [1987?]
    Recortes. Companhia das Letras, 1993.
    O discurso e a cidade. Duas Cidades, 1993.
    Lembrando Florestan Fernandes. Fundação Perseu Abramo, 2001.
    Iniciação à literatura brasileira (Resumo para principiantes). Humanitas, 1997.
    O Romantismo no Brasil. Humanitas, 2002.
    Um funcionário da Monarquia: ensaio sobre o segundo escalão. Ouro sobre Azul, 2002.
    A personagem de ficção. Perspectiva, 1968 [em coautoria].
    Presença da literatura brasileira: história e antologia. Difel, 1964 [três volumes]- [em coautoria].
    Política cultural. Mercado Aberto/ Fundação Wilson Pinheiro, 1984 [em coautoria].
    USP: 1968-1969. Hélio Lourenço de Oliveira. Edusp, 1995 [em coautoria].
    Antonio Candido: Remate de Males [número especial]. Unicamp, 1999 [antologia].
    Textos de intervenção. Duas Cidades/ Editora 34, 2002 [antologia].
 


Fontes:
https://www.youtube.com/watch?v=I_3flaRAkrg
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa378/antonio-candido
https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Candido
Fonseca, Maria Augusta. Antonio Candido: pensamento crítico - dez sugestões de leituras para iniciantes  https://www.fflch.usp.br/sites/fflch.usp.br/files/2017-11/Antonio%20Candido.pdf












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